quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"A tristeza dos portugueses" numa doçura sem igual...

“A tristeza dos portugueses”  numa doçura sem igual…



Hoje não vou escrever. Apetecia-me falar dos portugueses e da sua tristeza, mas o Miguel Esteves Cardoso disse tudo e muito mais do que eu poderia dizer. Ora leiam, sob o nome “ A tristeza dos Portugueses”, este belíssimo texto e absorvam cada palavra, reflictam e digam lá se eu tenho ou não razão.

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Pois, estamos perto da verdade, amamos com alguma tristeza, temos a bondade que nos envolve num casulo, onde tudo se relativiza numa doçura sem igual. Tristes, nós? Hum… nostálgicos, talvez… 

Anabela G.
in Jornal Renascimento, 2011 e http://www.eacfacfil.net/

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