quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Mentira, mentira, mentira...

Óleo sobre tela de René Magritte

Tu julgas que eu não sei que tu me mentes 
Quando o teu doce olhar pousa no meu?
Pois julgas que eu não sei o que tu sentes?
Qual a imagem que alberga o peito meu?

Ai, se o sei, meu amor! Em bem distingo
O bom sonho da feroz realidade...
Não palpita d´amor, um coração
Que anda vogando em ondas de saudade!

Embora mintas bem, não te acredito;
Perpassa nos teus olhos desleais
O gelo do teu peito de granito...

Mas finjo-me enganada, meu encanto,
Que um engano feliz vale bem mais
Que um desengano que nos custa tanto!


Florbela Espanca

Gostar de alguém pode ser tão forte que dizer a verdade pode ser cruel? Ou, por outras palavras: gostamos tanto de alguém que o que temos a dizer soa a crueldade e então vamos lá conceber uma forma em que as palavras têm de ser medidas, pensadas, adocicadas… para não magoar. Só que às vezes esse esforço é tanto que essas mesmas palavras soam a isso mesmo: mentira, mentira, mentira.
Sim, mentira. Essa palavra que queima, esturra, seca. Ou não. Quem não disse uma mentira que se levante sff.  A mentira dita social é aceite pela sociedade, dita todos os dias. Mente-se, pois, aqui e acolá. Mas é mentira quando se diz a verdade em palavras travestidas, mais ou menos brandas? Será uma mentira que poderá afinal de contas não o ser, mas então é o quê?
Há as pessoas que mentem porque têm uma extrema necessidade de serem amadas, apreciadas, ou elogiadas, e mentem para se sentirem aceites, mentem para serem mimadas, mentem para os outros e para si próprios.
Hannah Arendt dizia que é muito difícil mentir aos outros sem mentirmos a nós mesmos.  Em Hípias Menor, Sócrates trava um diálogo com Hípias, um sofista que conhece todas as ciências, um sábio, enfim. Este diz que um homem que não mente e um que engana são, no fundo, semelhantes. O que engana é um homem inteligente porque o faz conscientemente, ou seja é consciente da verdade, assim como aquele que não engana. São os dois válidos, ou seja, aqui está uma bela maneira de chegar a um fim sem olhar a meios…
Kant, por seu lado, acreditava que a mais leve mentira era um mal contra todos os homens. Já Santo Agostinho, posicionando-se num plano moral, acusava que mentir era um pecado grave.
E Florbela Espanca fingia-se enganada, porque o seu amor lhe mentia. E outros dizem que Pessoa mentia quando dizia que fingia tão completamente que fingia que é dor a dor que deveras sente.
Li algures que a melhor pessoa diz a verdade como quem mente. E o melhor mentiroso mente como quem diz a verdade. Será verdade?
Mas verdade, verdade, é a de Epicteto: “A verdade triunfa por si mesma. A mentira necessita sempre de cumplicidade”.

Anabela G.
Publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

O verdadeiro amor, segundo Wislawa Szymborska

Há verdadeiros momentos de magia. Por exemplo, quando descobrimos palavras que nos iluminam a alma. Como este poema, O verdadeiro amor segundo Wislawa Szymborska, Nobel de Literatura em 1996.

Não resisto a partilhar convosco.

O verdadeiro amor. É normal, é sério, é prático?
O que é que o mundo ganha com duas pessoas que vivem num mundo delas próprias?

Colocadas no mesmo pedestal sem mérito nenhum, extraídas ao acaso entre milhões, mas convencidas que era assim que tinha de ser - em prémio de quê? De nada.
A luz desce de qualquer lado.
Porquê nestas duas e não noutras?
Não é isto uma injustiça? É sim.
Não é contra os princípios estabelecidos com diligência e derruba a moral no seu cume? Sim, as duas coisas.

Olha para este casal feliz.
Não podiam ao menos tentar esconder-se, fingindo um pouco de melancolia, por cortesia com os seus amigos?
Ouçam como riem - é um insulto a linguagem que usam - ilusoriamente clara.
E aquelas pequenas celebrações, rituais, as mútuas rotinas elaboradas - parece mesmo um acordo feito nas costas da humanidade.

É difícil prever a que ponto as coisas chegariam se as pessoas começassem a seguir o seu exemplo.
O que aconteceria à religião e à poesia?
O que seria recordado? Ou renunciado?
Quem quereria ficar dentro dos limites?

O verdadeiro amor. É mesmo necessário?
O tacto e o silêncio aconselham-nos a passar por cima dele em silêncio, como sobre um escândalo na alta roda da vida.
Crianças absolutamente maravilhosas nasceram sem a sua ajuda.
E ele chega tão raramente que nem num milhão de anos conseguiriam povoar o planeta.

Deixem que as pessoas que nunca encontraram o verdadeiro amor continuem a dizer que tal coisa não existe.

Com essa fé será mais fácil para eles viver e morrer.

Ficaram maravilhados como eu? Aqui está uma bela maneira de começar o ano. Quando se fica de alma cheia com um verdadeiro amor. Pelo sentimento. E pelas belas, perfeitas, palavras deste poema cheio de graça e génio…

Anabela G.
Publicado in Jornal Renascimento

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Os enigmas de Wittgenstein II - O mundo é tudo, a questão é essa…

Continuando com a conversa anterior sobre Ludwig Wittgenstein. Não esqueçamos que existiram duas fases diferentes na vida do pensador. Uma resultou na publicação de Tractatus Logico-Philosophicus, o seu primeiro livro, e outra, bem diferente, relatada em Investigações Filosóficas, publicada postumamente.
Terminámos a conversa anterior com um pensamento do autor sobre a Filosofia: não evoluiu nem um bocadinho desde Platão: “Será que isso se deve à inteligência de Platão”? Será…
E o que será que está por trás de simples palavras, como “este ananás é muito agradável”? O pensamento? E que pensamento subjaz à frase? Imaginamos o sentido do que dizemos como sendo estranho, misterioso, oculto do nosso olhar. Mas nada está escondido. Está tudo à vista! Os filósofos é que turvam as águas…
À primeira vista parece que Wittgenstein odeia a filosofia. Chega a dizer que a Filosofia não explica nada, não resolve qualquer problema do mundo.
Há problemas linguísticos, matemáticos, éticos, logísticos e religiosos, mas não há problemas genuinamente filosóficos. A filosofia é apenas um subproduto de uma incompreensão da linguagem, busca a essência do sentido. E tal coisa não existe, segundo o autor chegou a reflectir. Inútil a Filosofia? Para Wittgenstein era mais uma terapia.
Mais curiosa era a sua visão, segundo a qual a Filosofia era uma alma que estava prisioneira dentro do próprio corpo, sem contacto com os outros devido às barreiras impostas por terceiros. E ele queria libertar-se dessa prisão… porque não há nenhum significado especial. Somos aquilo que somos, porque partilhamos uma linguagem e uma forma de vida comum. Contudo, não deixa de dizer que, importante na Filosofia, é aquilo que ela pode questionar, articular, posição completamente contrária à que tinha defendido na sua “primeira” filosofia em Tractatus Logico-Philosophicus.
Muito mais há para dizer sobre Wittgenstein. Por isso aguardamos ansiosamente o resultado das investigações sobre a recente descoberta de um espólio em casa de um dos seus alunos. A sua forma de fazer filosofia, se assim lhe podemos chamar, cativa, não só devido às questões que levanta, mas, porque partilha connosco de um modo muito próximo as suas inquietações. Com ele partilhamos um mundo inquietante onde o enigmático, a dúvida, se misturam com o conhecimento. Porque ele próprio proclama que sem dúvida não há conhecimento.
E qual é o autor que não fascina quando afiança que não há enigmas…se algo pode ser equacionado também pode ser respondido?
O mundo é tudo, a questão é essa, diz-nos. E nisso, não ousamos duvidar…

Anabela G.
publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Os enigmas de Wittgenstein – e a descoberta de um tesouro…

Ainda há descobertas que nos entusiasmam…
Foi recentemente encontrado um verdadeiro tesouro, um daqueles achados que podem esclarecer e até modificar o conhecimento que temos de um autor de que julgávamos conhecer as suas ideias. Estou a falar de um dos filósofos do século XX que pessoalmente mais interesse me suscitou, Ludwig Wittgenstein. Poder-se-á dizer que a sua filosofia não foi uma, mas duas, correspondentes às duas únicas obras publicadas, Tractatus Logico-Philosophicus, a única publicada em vida e Investigações Filosóficas, publicada após a sua morte e onde o seu pensamento se radicaliza em ópticas completamente opostas.
Pois foi descoberto um novo espólio em casa de um dos seus alunos, onde permaneceu incógnito até agora, o que nos deixa a esperança de conhecer mais do seu pensamento científico e das suas extraordinárias reflexões.
Não comecei propriamente por compreender Wittgenstein, até que vi um documentário sobre a sua vida, intitulado precisamente Wittgenstein, do realizador Derek Jarman, filme que recomendo vivamente a quem se quiser iniciar no pensamento daquele autor.
Neste documentário o realizador, além de nos permitir espreitar um breve olhar sobre a vida pessoal do filósofo, abre-nos igualmente a porta da sua obra e pensamento e da sua intensa e persistente busca de certezas e respostas, na ciência que apelida de “doença da alma”, a Filosofia. O realizador procura desvendar-nos algo sobre várias vertentes do pensamento de Wittgenstein, nomeadamente a Filosofia, a Linguagem, a Religião e os seus próprios afectos.
Sobre a linguagem acredita o filósofo em Tractatus Logico-Philosophicus que aquela dá-nos a imagem do mundo mas não nos pode dar a imagem de como o faz. Seria como tentarmos ver-nos a observar qualquer coisa! A forma como a linguagem o faz é inexplicável. É esse o mistério. Mas isso estava completamente errado, concluiu mais tarde o segundo Wittgenstein, como muitos autores se referem à segunda parte da sua obra. A linguagem não é uma imagem. É uma ferramenta, um instrumento. Não há apenas uma linguagem no mundo. Há muitos jogos de linguagens diferentes. Diferentes formas de vida e formas de fazer coisas com palavras… não está tudo junto! Afirma: “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo. (…) Estamos sempre a esbarrar contra as paredes da nossa jaula”.
O autor abandonou a ideia de que a linguagem era uma imagem, porque tal é uma metáfora enganadora. Mala é a imagem de mala… mas e “olá” e “talvez”? Que imagem nos ? Continuando a reflectir sobre os limites da linguagem e o que significa comunicar, persuade-nos que o sentido das palavras provém daquilo que fazemos e daquilo que somos. “Não posso perceber a linguagem de um leão pois desconheço o mundo dele. Como posso conhecer o mundo que ele habita? Será por não poder espreitar-lhe a mente”?
Wittgenstein acredita que há a necessidade de dominar um jogo de linguagem. Em cada âmbito de uma certa actividade há palavras com semelhança de família, que é imprescindível dominar. Contudo, o jogo de linguagem pode com o tempo alterar-se, caducar, o que implica uma alteração de vocabulário e também de gramática. E refira-se que gramática para o autor, não é apenas a sintaxe, mas todo o contexto, incluindo as regras do seu uso.
O jogo de linguagem pressupõe igualmente formas de vida. O ser humano tem a capacidade de projectar a sua vida para além do humano e, para Wittgenstein, necessariamente na Arte. Isso implica a capacidade de alargar os nossos horizontes para além do imediato, até porque o ser humano exige Arte. E não é uma opção. É uma necessidade muito humana, porque transmite um sentido de identificação a algo maior, uma excitação que exalta os sentidos e a mente.
Fascinante? Imaginem então o que nos espera quando os investigadores nos esclarecerem sobre as novas reflexões de Wittgenstein, o tal tesouro recentemente achado. Sim, achado… Aqui está uma linguagem que gosto de utilizar….
No próximo artigo falarei sumariamente, como não poderá deixar de ser nestas breves linhas, nas reflexões do autor sobre Religião e Filosofia. Sobre esta dizia o autor que não evoluiu nem um bocadinho desde Platão: “Será que isso se deve à inteligência de Platão”?
E ainda há quem diga que os filósofos não têm humor…

Anabela G.
Publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Novo ano, tempo de crise, tempo de ser feliz...

Um novo ano está à porta e aproxima-se a grande velocidade, qual furacão a entrar em nossas casas. E sim, a palavra furacão é uma alusão à incerteza e possíveis dificuldades ainda mais aflitivas que as que este ano vivemos.
A incerteza é uma certeza. Imaginamos o que nos espera, mas estaremos preparados para um ano ainda mais difícil? Porque as dificuldades que se avizinham serão ainda maiores e mais sentidas se não estivermos preparados para as receber e vivê-las de forma a não nos destruirmos e destruirmos o outro, os outros, os alguéns, os que não vemos e os que vivem ao nosso lado.
O começo de um novo ano faz-nos sondar a passagem do tempo na nossa vida. O que acaba, o tempo ou a vida? O tempo é finito, mas a nossa vida pode suportar o tempo e caminhar para além dele.
O que está por vir não é algo predeterminado, mas constrói-se na marcha implacável do tempo. Dentro dele, livremente, vamos ao encontro da felicidade ou da desgraça. Temos a nossa liberdade para decidir o caminho a escolher. Uma liberdade lado a lado com a responsabilidade, porque o caminho mais fácil será culparmos todas as crises e todos os outros pelas dificuldades que advirão. Será nesta liberdade e respeito pelo semelhante que poderemos ter esperança que os problemas poderão ser minorados.
Esta responsabilidade é-nos dada por Dostoievsky: “Somos todos responsáveis por tudo e por todos e eu mais do que qualquer outro e antes de qualquer outro”. Desta maneira, cada um tem de responder sob a injunção do outro, independentemente daquilo que cada qual faça. Ou seja, esta regra é a condição para cada um saber agir por si, sem esperar nada em troca. É saber agir em função da nossa consciência, do reduto último da nossa humanidade; é agir em função do bem para além do Ser. Este é o verdadeiro humanismo: responder em função do apelo do outro sem almejar qualquer recompensa que não a execução do bem pelo bem.
Será o tempo em que teremos de praticar a ética nas nossas vidas em todas as frentes. O habitual é surgir o “eu” que se vai rodeando de diversos predicados, no entanto, a responsabilidade não é uma qualidade do “eu”, é o próprio “eu”. Quem nos ensina isto são os mestres do saber e da filosofia, desde Levinas a Derrida, passando por Ricoeur. E esta é a altura para nos socorrermos dos ensinamentos dos Mestres e dos que dedicaram a vida ao conhecimento, porque com eles estaremos mais preparados para enfrentar as adversidades e o desconhecido. Sem nos recolhermos à nossa concha e apenas olharmos o nosso umbigo. Porque, este sim é o verdadeiro perigo. Ao contemplarmos apenas o nosso eu, desprezamos os outros e secamos as nossas vidas e tudo em volta.
Faço, pois, um desafio a todos vós, a todos nós. Vamos enfrentar um ano difícil, sim. Mas não esqueçamos os valores, não esqueçamos o outro, numa qualquer desculpa da crise e obstáculos que, sim, também, são, serão, muitos.
Vamos ter esperança em nós e nos outros, sem angústias e desalentos. Vamos fazer como Orson Welles: "Mesmo quando não havia nenhuma esperança, sempre procurei dar o melhor de mim."
Bom Ano Novo. E não resisto a citar também António Feio: “Não se esqueçam de ser felizes!”

Anabela G.

Publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Um Natal com menos, mas mais Natal…




O Natal, mais uma vez. Todos os dias é Natal, alguém disse, mas em Dezembro, lembramo-nos que realmente é Natal. Todos os anos o Natal é diferente, de uma forma ou de outra, porque cada um tem consigo as marcas do tempo que o sucedeu.
Dizer que este Natal é difícil soa-me a repetição de muitos outros Natais. Os tempos estão difíceis, sim, mas tantos anos houve que eles estavam igualmente difíceis… Este ano está mais? Sim, provavelmente, para mais pessoas, mas em todos os outros Natais as dificuldades acompanharam a vivência de tanta gente! Mas um Natal com menos, pode ser um Natal melhor. Quem o diz é Frei Fernando Ventura, que reflectiu sobre este Natal e do qual vos deixo aqui uma parte da sua reflexão que pode ser lida na íntegra do site da Agência Ecclesia.

"Ser hoje luz num tempo de sombras, parece ser o “destino” de cada um de nós no tempo que passa, num tempo que passa e que dói, que dói esta dor funda da impotência, da impotência diante dos gigantes das sombras que se agigantam e que parecem querer tomar de assalto tudo o que mexe, tudo o que respira e tudo o que sonha. Por isso hoje é tempo de NATAL com menos, mas um Natal melhor! O mundo, o país e cada um de nós, vive tempos de esperança e de mudança, em que o novo surge como a nova fronteira a conquistar, mas onde o medo e os medos teimam em formar barreira diante dos olhos, destes olhos feitos para ver a luz, feitos para encarar o medo, feitos para não terem de ver o sol só reflectido nos charcos. Por isso hoje é tempo de NATAL com menos, mas um Natal melhor! Se calhar, a maior conquista do tempo do medo que passa, foi precisamente esta de nos ter tirado a capacidade de ousar levantar a cabeça, de ousar olhar para além do imediato do já, em direcção ao menos “imediato” do ainda não, mas que está e vive em tensão de devir, de futuro, de projecção para diante, num diante que encontra a utopia e faz dela o sonho, um sonho que vence o medo, um sonho que se abre à luz. Por isso hoje é tempo de NATAL com menos, mas um Natal melhor! É por aqui que passa o segredo, este segredo que invejosamente levamos dentro sem partilhar, que envergonhada e pudicamente escondemos e que não conseguimos dar à luz e que nos faz gemer, gemer as dores do parto que tarda, gritar o grito das vozes caladas. Por isso hoje é tempo de NATAL com menos, mas um Natal melhor! E no entanto, a gravidez do tempo existe, as dores do parto afligem-nos, o nascimento tarda em acontecer, e o meu povo sofre, e a minha gente grita, o grito surdo que a voz rouca não é capaz de calar, mas que o medo embota, e que o desespero não deixa encontrar a paz (…)”

Esta crise que acompanha o Natal, também é uma crise que nos acompanha dentro de nós mesmos, dentro do nosso nós mais interior, aquele em que gritamos connosco e nos faz pensar e dizer basta tantas vezes. E desta vez também podemos dizer um basta de não saber quem somos, o que fazemos num mundo tão explorado e igualmente manipulador, em que somos arrastados pela torrente avassaladora dos acontecimentos que nos esmagam e fazem doer, porque ao olhar em volta vemos dor e sofrimento no olhar do outro e em nós esta dor é tão, mas tão semelhante, porque a crise começa no meu eu, na minha génese de ser quem sou.
Vamos aceitar o desafio de Frei Fernando Ventura e dizer NATAL, porque é um Natal com menos, mas pode e deve ser um Natal melhor. Vamos olhar para o esplendor do Natal das luzes e decorações douradas e coloridas e interiorizar esta beleza dentro de nós próprios, para que o Natal seja realmente sentido em todos os sentidos, para que possamos sentir um Natal dentro de nós, mas em direcção ao outro, que esquecemos numa lembrança tão ilusoriamente oferecida no nosso mais superficial gesto de dar um presente, não porque é Natal, mas porque é mais um Natal…
Vamos fazer um Natal com menos, mas mais Natal, porque verdadeiramente é Natal lá fora e dentro de nós, hoje e eternamente Natal. Feliz Natal todos os dias! 

Publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Feliz Natal a todos...

Feliz Natal a todos os meus amigos e leitores,


Anabela G.

 Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Fernando Pessoa

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Já não há tempo?

Já não há tempo?

Há dias assim… dias em que nos apetece desligar o interruptor e mergulhar no silêncio, no vazio da nossa alma. Deixar de ouvir os lamentos de todos os dias, as notícias de mais uma catástrofe que deixou seres como nós sem tecto e sem comida, de uma guerra fratricida que assassina vizinhos, amigos e irmãos, de uma crise instalada que nos fulmina todos os dias com mais um caso que nos faz duvidar do dia de amanhã, de uma manhã de trabalho que nos esgotou as forças de um dia inteiro…

Há dias que já não se aguentam. Dias em que não vislumbramos o sol, dias que duvidamos que Deus existe. Dias que em que protestamos vivamente, como Al Berto:  deus tem que ser substituído rapidamente por poemas, sílabas sibilantes, lâmpadas acesas, corpos palpáveis,
vivos e limpos.
 É quando perdemos o tempo. Já não sabemos onde está, ou, pior ainda, para que o queremos. Ele escapa-se-nos das mãos. Ouvimos, mas não sentimos. Guerra? É tão lá longe… Crise? Está tão instalada que mais uma notícia é só mais uma notícia. O tempo esgota-se em cada má notícia, os dias esvaiam-se numa sucessão de segundos onde estamos onde não queremos, fazemos o que não projectamos, sentimos o que não desejamos. 
E, num repente, dá-mos connosco a pensar: mas já não há tempo...

— Bom dia - disse o principezinho.
— Bom dia - disse o vendedor.
Era um vendedor de pílulas aperfeiçoadas que acalmam a sede. Toma-se uma por semana e deixa-se de sentir qualquer necessidade de beber.
— Por que é que vendes isso? Perguntou o principezinho.
— É uma grande economia de tempo, disse o vendedor. Os peritos fizeram as contas. Permite poupar cinquenta e três minutos por semana.
— E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
— Faz-se aquilo que se quer...
«Eu, disse para si mesmo o principezinho, se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, caminharia muito lentamente para uma fonte...»

Saint-Exupéry  tinha tempo. E nós teremos? Eu gostava de ter tempo para me contarem uma história… ouvir uma música dentro do silêncio, ter um sonho nas páginas de um livro… Porque como dizia José Jorge Letria,

Os livros são a metade /Dos sonhos que tu tens,/São a tua liberdade/ E o maior dos teus bens,/Porque tendo a tua idade/Têm tudo o que tu tens.

Anabela G. e http://www.eacfacfil.net/

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Abelaira e Espinosa ou a Pátria dos Imortais…


Augusto Abelaira, escritor, professor, romancista, foi (é) um dos grandes nomes da cultura portuguesa. Na sua vasta obra teve uma especial predilecção pela autocrítica geracional e o próprio acto da escrita, temas a que recorria frequentemente.
Vem isto a propósito de um seu artigo “Nascido em Portugal, Espinosa…”. Encontrei-o no meu “baú” académico e lembro-me de ter debatido, com colegas e professores, se o autor nessa sua reflexão, não teria também uma ponta de melancolia, de desalento até, de nascer português. Não de “ser” português, coisa completa e absolutamente diferente, até porque Augusto Abelaira sempre se pautou por intervir activamente na vida política de Portugal. Senhor de uma ironia profunda participou activamente na cultura e na sociedade portuguesa, não hesitando em envolver-se na altura em que a censura imperava em Portugal.
Mas, voltando ao artigo em questão, Abelaira tece várias considerações sobre a importância (ou a falta dela) de alguns autores célebres nasceram num determinado país. Neste caso concreto, falava de Espinosa e Portugal.  
Será que se Portugal não tivesse expulsado os judeus, Espinosa poderia ter nascido português? E, mesmo assim, quem garante que a família de Espinosa não teria emigrado?
O autor refere que a história humana está repleta de “ses”, reflectindo sobre um certo determinismo muito característico de alguns autores portugueses (da alma portuguesa, diríamos nós), convencidos que Portugal, no seu cantinho do Sul da Europa, tem sempre um papel reduzido no panorama cultural mundial (sim, temos Saramago, para falar apenas de um Nobel, temos já muitos e bons nomes a circular por esse mundo, mas o que poderíamos ter se Portugal não fosse o tal cantinho, o tal “rectangulozinho”?).
Citando Eduardo Lourenço, Espinosa poderia ter escrito a sua Ética em Lisboa ou Coimbra… mas teria ela entrado no grande “diálogo europeu” como aconteceu ou teria antes permanecido confinada à nossa cultura lusa e, assim, sem a projecção que teve na cultura universal? Teria esta que agradecer a tragédia de tanto sangue derramado em Lisboa, para dar à luz um dos grandes racionalistas da filosofia moderna?
Talvez Portugal não reunisse as mesmas condições que Amesterdão proporcionou ao célebre filósofo. Mas, mesmo que reunisse, certamente não seria o mesmo Espinosa… Certamente a sua obra não seria a mesma, o contexto cultural não seria o mesmo, logo a sua Ética não seria a “sua”, mas outra, desenvolvida em contextos diferentes.
Novamente Abelaira recorre na sua reflexão ao fatalismo português. Discorre sobre o individualismo nacional, a falta de diálogo, à quantidade de “Mozarts perdidos” pelo facto de nascerem portugueses… Aqui não estaria o autor a sentir a tal melancolia que falamos há pouco, de nascer em Portugal? Com tantas obras publicadas e o reconhecimento que granjeou, Augusto Abelaira poderia ser conhecido e estudado noutros países, numa outra dimensão, entrado no tal diálogo europeu…. Se (os tais “ses”…) Abelaira tivesse nascido em Amesterdão teria a projecção mundial que certamente almejaria, ou seria, como em Portugal, um escritor premiado e reconhecido nacionalmente, mas apenas e só a nível nacional?
Não saberemos nunca, mas este pensamento determinista, fatalista, de impossibilidade de lutar contra acontecimentos que impedem a liberdade de vida e tolhem a liberdade de movimentos é característica de outros escritores portugueses como Eça, Antero ou Pessoa.
Será que Abelaira não escapou a este estado de alma tão típico de Portugal? Não somos capazes de responder, mas acreditamos que Abelaira subscreveria a afirmação de Alfred de Musset: “Os grandes artistas não têm pátria”.  
E arriscamos a perguntar: a pátria dos filósofos, poetas e escritores não será os seus livros, as suas palavras?

P.S.: Vivemos presentemente uma situação nacional tão crítica  que cada vez mais estamos convictos que Portugal não mudou tanto assim… E ainda por cima continuamos “sebastianistas”… até quando?

Anabela G.
Publicado in Jornal Renascimento e http://www.eacfacfil.net/

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

HOJE ESTOU TRISTE ESTOU TRISTE

Hoje estou triste... faz 76 anos da morte de Fernando Pessoa. Estou triste pelo óbvio mas por outro lado nem sei se estou... Tenho a poesia que ele nos deixou. Afinal estou triste ou não? Oh... Fernando Pessoa tem a resposta! Ei-la:
HOJE ESTOU TRISTE ESTOU TRISTE

Hoje estou triste, estou triste,
Estou muito triste, e, em parte,
Minha tristeza consiste
Em nem saber se estou triste.

Se toda tristeza tem
Uma causa, qual a desta?
Que mal a causa ou mantém?
Pode ser que seja um bem.

A alma humana é estrangeira,
E tem usos e costumes
Fora da nossa maneira.
Estou triste, ainda que o queira…

Fernando Pessoa

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Pessoa, eterno...

Pessoa, eterno…

Alvo de inúmeros e variados estudos, livros, teses e doutoramentos, Fernando Pessoa é uma figura ímpar e incontornável da Literatura Portuguesa. Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, no ano de 1888. Poeta e escritor por vocação e não por profissão, como ele próprio refere na sua “Nota biográfica escrita pelo próprio Fernando Pessoa (30-3-1935)”, publicou em vida um único livro “Mensagem”.
Em inglês publicou vários poemas, mas foi sobretudo em colaborações com revistas e jornais que se deu a conhecer em vida, destacando-se as revistas A Águia, A Renascença, Orpheu, Contemporânea, Presença, Fama, entre muitas outras. Postumamente, foram publicados livros em prosa, organizados por diversos autores, e o Livro do Desassossego, sob o semi-heterónimo Bernardo Soares; vários livros de poesia, que assinou sob diferentes heterónimos, destacando-se Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos; e variadíssimos ensaios e reflexões.      

 sobre a “mensagem”


Mensagem é um livro de Poemas, ou “O Poema”, como ele próprio o designa, considerado por alguns autores como a sua obra-prima, enquanto outros valorizam muito mais os livros por ele publicados sob os atrás referidos heterónimos.
Não podemos, contudo deixar de considerar que, escolhendo o autor este livro para a sua primeira publicação, o considerava certamente acima de qualquer outro.

Originam-se estas linhas na evocação do dia 30 de Novembro de 1935, quando partiu desta vida, deixando-nos “várias vidas”.

Anabela G.
in Renascimento, publicado em 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O mundo também é de quem sente?

O mundo também é de quem sente?

Um destes dias um amigo confidenciou-me que muitas das suas convicções estavam a ruir como madeira verde sobre os seus pés e isso estava a afectar toda a sua vida. Tinha visto um documentário sobre as oportunidades num determinado país e a ideia de partir emergia insistentemente na sua cabeça.
Como por acaso ou talvez não, surgiu-me uma reflexão do neuropsicólogo Nelson Lima que lhe dei a ler e a partilho aqui.
TER CONVICÇÃO é muito importante para tomarmos decisões mas pode não ser suficiente. Este é um dos dilemas com que muitos de nós, ao longo da vida, nos deparamos. Vejamos. Toda a gente sabe que certos alimentos causam problemas de saúde como, por exemplo, o açúcar. Infelizmente, a convicção não faz com que as pessoas se preocupem o suficiente para agir. Para passarmos da convicção à acção temos de nos INTERESSAR. Sabe o que é o Efeito de Madre Teresa? As instituições de caridade conhecem-no. É assim: é mais fácil interessar as pessoas a ajudarem uma causa específica (por exemplo: as vítimas reais de um terramoto) do que algo abstracto (por exemplo: a pobreza). O que faz a diferença? As EMOÇÕES. É perante situações concretas que somos mais facilmente tocados e passamos à acção.”
Uma ideia, por exemplo, conjugada com uma imagem forte sobre a mesma, provoca na nossa mente uma convicção. A imagem forte pode ser o fruto da nossa imaginação agitada, influenciada pelo pensamento. Tudo isto pode resultar de estados negativos ou positivos, ser provocado pelas desilusões ou alegrias, fracassos ou progressos.
Normalmente, as convicções arrastam-nos para posições mais ou menos veementes e procuramos tudo fazer para as pôr em prática, minimizando tudo aquilo que se lhes opõe, valorizando cada ponto a seu favor.
Sabendo que a vida é feita de convicções, já se está a ver a importância das emoções, no fundo condicionam as nossas convicções, dado que não vivemos sem elas. Aliás, Ortega y Gasset já dizia que a própria vida é absoluta convicção.

Passamos à acção com base nas nossas convicções, somos influenciados pelas emoções… que são tão mais fortes quanto mais concretas elas se nos afiguram. Isto não é simples de exprimir, não… E para complicar ainda mais deixo-vos com um pensamento de Fernando Pessoa que diz que "toda a emoção verdadeira é mentira na inteligência, pois se não dá nela. Toda a emoção verdadeira tem portanto uma expressão falsa. Exprimir-se é dizer o que se não sente”. Ah, e disse também que o mundo é de quem não sente
Ah, o meu amigo já decidiu… E dá-se ao luxo de discordar de Fernando Pessoa. O mundo também é de quem sente, disse ele. Eu diria antes: o mundo é mais meu quando sinto.

Anabela G.
In Jornal Renascimento, 2011 e http://www.eacfacfil.net/

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

"A tristeza dos portugueses" numa doçura sem igual...

“A tristeza dos portugueses”  numa doçura sem igual…



Hoje não vou escrever. Apetecia-me falar dos portugueses e da sua tristeza, mas o Miguel Esteves Cardoso disse tudo e muito mais do que eu poderia dizer. Ora leiam, sob o nome “ A tristeza dos Portugueses”, este belíssimo texto e absorvam cada palavra, reflictam e digam lá se eu tenho ou não razão.

Porque é que os portugueses são tristes? Porque estão perto da verdade. Quem tiver lido alguns livros, deixados por pessoas inteligentes desde o princípio da escrita, sabe que a vida é sempre triste. O homem vive muito sujeito. Está sujeito ao seu tempo, à sua condição e ao seu meio de uma maneira tal que quase nada fica para ele poder fazer como quer. Para se afirmar, como agora se diz, tão mal.
Sobre nós mandam tanto a saúde e o dinheiro que temos, o sítio onde nascemos, o sangue que herdámos, os hábitos que aprendemos, a raça, a idade que temos, o feitio, a disposição, a cara e o corpo com que nascemos, as verdades que achamos; mandam tanto em nós estas coisas que nos dão que ficamos com pouco mais do que a vontade. A vontade e um coração acordado e estúpido, que pede como se tudo pudéssemos. Um coração cego e estúpido, que não vê que não podemos quase nada.
Aí está a razão da nossa tristeza permanente. Cada homem tem o corpo de um homem e o coração de um deus. E na diferença entre aquilo que sentimos e aquilo que acontece, entre o que pede o coração e não pode a vida, que muito cedo encontramos o hábito da tristeza. Habituamo-nos a amar sem nos sentirmos amados e a esse sentimento, cortado por surpresas curtas, passamos a chamar amor. E com verdade. No mundo das ausências, onde a tristeza vem de sabermos muito bem o que nos falta, a nós e àqueles que nos rodeiam, a bondade, que nos torna vulneráveis aos sofrimentos daqueles que nos acompanham e nos faz sofrer duas vezes mais do que se estivéssemos sozinhos, é o preço que pagamos por não sermos amargos. É graças à bondade que estamos tristes acompanhados. Há uma última doçura em sermos tristes num mundo triste. Igual a nós.

Pois, estamos perto da verdade, amamos com alguma tristeza, temos a bondade que nos envolve num casulo, onde tudo se relativiza numa doçura sem igual. Tristes, nós? Hum… nostálgicos, talvez… 

Anabela G.
in Jornal Renascimento, 2011 e http://www.eacfacfil.net/

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Não sei se sei amar

Não sei se sei amar…

Quando te logro mais, mais te desejo;
Quando te encontro mais, mais te procuro;
Quando mo juras mais, menos seguro
Julgo esse doce amor, que adorna o pejo
.” Bocage


Desculpa o meu silêncio, meu amor.
Desculpa o meu silêncio das vezes que te não digo que amo.
Desculpa os dias que passo sem te olhar. Desculpa as coisas que não faço por não pensar. 
                É  que amar é uma aventura. Uma turbulência que se sente e não se define, uma calma que fatiga…. É o sol, o mar e um rio que nos inunda, uma fúria ansiosa que nos vicia.
E eu confesso, meu amor, que não sei se sei amar. Porque ao amar perco tudo o que aprendi, volto ao meu princípio de ser nada e tudo ao mesmo tempo.
Não te compreendo, porque me espantas e a tua luz vive em mim numa chama que me esgota. Amo no inferno e no paraíso, onde me encantas e me consomes. E eu devoro-te e inspiro-te, desassossego-te e preencho-te.
Sim, eu sei… não sabes se me inventas ou me reconheces, não sabes se existo ou te iludo.
E eu não sei e tu não sabes, porque amar não se ensina, porque o que aprendemos antes afinal não é o que sabemos agora.

Sim, meu amor, desculpa, mas não sei se sei amar… porque não sei se te perdes por me amares, porque não sei se te adivinho no teu querer, porque não sei se o teu coração bate na minha razão…
Sim, amor, eu queria destruir os meus silêncios... Abraça-me. Quero calar-me na serenidade dos teus braços, vestir-me na força do teu olhar… Que me importa que me gritem?

Anabela G.
In Jornal Renascimento, Novembro 2011 e http://www.eacfacfil.net/